Mexo

Mexo
:::em tudo (foto: Rafael Bertelli)

sábado, abril 11, 2009

Conto Chuvoso

De repente começou a chover. Uma chuva grossa que fazia um barulhão, estalando sobre os telhados e os chãos dali. E chovia tanto – e debaixo pra cima – que meu vestido branco ficou cinza e tudo que era elegante e sóbrio, ficou transparente, quase vulgar.

Meu cabelo escorria colando na minha face e aquilo me incomodava. Afastei-o e na minha mão, três fio da merda do cabelo que teimava em cair. Sacudi a mão e os três fios não descolavam! Então esfreguei no vestido e aquilo me deu mais raiva: os três fios eram visíveis demais ali! Tudo estava extremamente visível ali. Tirei os três fios do vestido e segurei-os até encontrar uma calha que tinha um cano por onde escorria a água que estalava sobre o telhado. Estendi a mão e a água corrente levou os três fios do meu cabelo embora.

Continuei andando, o vestido já completamente transparente, irremediavelmente vulgar. Meus pés boiavam numa lama que se fez entre sua sola e os sapatos de salto. Alto. Na chuva. Sapato aberto, tipo sandália, dedos de fora, nada ideais para uma noite como aquela, pode apostar.

Oops! Uma escorregadela, um leve desequilíbrio, natural. Só não poderia cair de bunda, tinha pavor de acabar contraindo uma leptospirose! Até porque, a calha já ficara para trás e me levantando do chão, como faria pra continuar afastando meu cabelo do rosto com as mãos imundas de rua molhada? Molhada de chuva, de xixi de rato, de cuspe, escarradas... ai. Apertei o passo, queria chegar logo. Merda, um boteco. Apertei mais o passo... um mega escorregão! Não cheguei a cair, mas quis morrer ao ouvir a risada daqueles bêbados nojentos do boteco que me chamavam de todos os nomes não-castos que conseguiram se lembrar. Maravilha.

O cabelo sempre escorrendo pela cara, o vestido transparente revelando minha bunda enorme, minha calcinha de renda rosa e meus peitos sem proteção alguma além dos meus braços demasiado finos pra conseguir escondê-los. Tudo parecia especialmente devagar naquele dia. Parece que andei de Vila Isabel à Copacabana!

Até que, finalmente, cheguei. Pela última vez, afastei o cabelo do rosto e pude ver então minha sala amarela e quentinha. Corri pro banheiro. Morria de vontade de fazer xixi.

Rogério Diz:


A sua solidão... a nossa... É... Vai passar. Até por que você seria muito insensível se estivesse assim longe da "família", do seu lugar e não sentisse solidão. É natural e o bem em nós é que somos pessoas um pouco bacanas e nos fazemos boa companhia.

Tenho pena daquelas que não podem ficar só por não suportar a própria companhia por serem pessoas ruins de má qualidade...

Mas lembre-se: você não está só. Pois pelo mundo afora tem varias pessoas ou pensando, ou falando, ou sentindo você, pelo quê de transformação você trouxe, seja de que forma foi, à vida delas.

Te amo e vamos dormir pois a vida é Bela e está bem do nosso ladinho esperando para tocarmos para frente e para riba! Mil beijos e cócegas na barriga.

terça-feira, abril 07, 2009

O Amor que tu tivesses

Ah, tu não dispensarias esse amor se pudesses ver como te olha. Como seu coração se abre quando escuta tua voz, como lhe escapam as palavras e os sorrisos quando olhas para ela.

Se soubesses como acorda cantando se sonha contigo, que fica horas a escolher a roupa ainda que só vá encontrar-se contigo em pensamento.

Tu não dispensarias esse amor se quisesses ver que é por tua causa que melhora, que está mais bonita, que escreve e chora.

Tu não dispensarias esse amor se visses que chega vinte minutos antes ao teu encontro, pois pode ser que chegues dois, e ao teu lado sente eternidade...

Não dispensarias esse amor se quisesses saber que o melhor de tudo é sempre para ti. O melhor pedaço, os melhores votos, o melhor horário, o melhor cobertor, os melhores brincos.

Não o dispensarias se a visses murchar quando vais embora, quando não a beijas ou quando zombas dela. Há em seu rosto dor tão funda que só se reconhece em quem sofre de amor.

22/12/2008

À minha mãe

Que o meu destino, mãe, era ser inquieta, se desde pequena, mãe, rabiscava as paredes de casa e me declarava arco-íris – como se soubesse que uma cor só não me bastaria – eu já sabia.

Não sou rosa, mãe, não sou lírio. Se o lírio tem só uma cor e quando muito, umas pintas que o deixam mais exótico.

Não sou exótica, mãe, eu sou vulgar. E eu já sabia.

domingo, março 15, 2009

Age of seven (I need no gods)

I've just turned seven
and realized life is not so kind
God doesn't live in heaven
He may be somewhere in your mind

My life is so far behind
And I really feel the joy of it
My legs can take me there
So I keep going no one can stop me

I'll live my freedom
find the wisdom
to make me fly

I'll have no reason
I need no gods
To make me fly

I'll live my freedom
find the wisdom
to make me fly

I'll have no reason
I need no gods
to make my mind
I will make my mind

segunda-feira, março 09, 2009

Layla

Ei, Layla, venha, acorde.
Venha que te vou mostrar um lugar de duendes.
Acorde. Acorde que lua dormiu, podemos sair.
Vamos correr por aí na surdez da noite, furar seu pano de fundo como se o negro não devorasse as cores, como se abrisse espaço para elas em madrugadas de travessuras!

Vamos, só nós duas, rolar na grama do jardim que está úmida de orvalho mas não há de dar gripe.
Vamos, Layla, acorde, senão perdemos os duendes que quando raia o Sol, somem pra dentro das plantas.
Acorde a ver os vagalumes que ali vão...

Tu perdes todo o espetáculo a dormires aferrado.
E se te conto de manhã, ries de mim.
E se digo que vim buscar-te, não me acreditas.
Melhor então deixar que sonhes.
Assim tens tu de me contar.

terça-feira, novembro 25, 2008

Em falta

É incrível como me faltam partes quando me falta o amor.
Me falta calor à sopa,
me falta sal à carne seca,
doce à cana,
letras nos livros.
Sinto falta de graça nos palhaços e até nas flores.
Faltam-me figuras nos quadros de modo que da moldura pra dentro,
vejo apenas branco.

domingo, outubro 26, 2008

Re-afeição

Pela manhã, tomou um copo de reflexão.
Para o almoço, salada de idéias temperada com azeite de otimismo.
Jantou uma tigela de caos bem quente afim de pegar a serenidade da noite. Dormiu tranqüilo, com a mente serena. E sonhou com um universo em cores e cheiros, temperaturas e sons e só. Como que se de tão grande não pudesse ver os detalhes ou de enxergar os detalhes tão profundamente e entendê-los, tomasse enfim conhecimento do todo, da causa, do porquê que responde a tudo sem palavras, apenas tocando no íntimo, vibrando no que há de mais dentro de nós, acariciando nossa sensibilidade, acordando nossa percepção, muito além dos sentidos, muito além do tempo...

domingo, agosto 10, 2008

teatro gestual

eu não vou te pedir nada, mas para me deixar.
largue meu braço, largue meus olhos.
me deixe ir de uma vez e não atenda, não responda, não chame.
não cruze comigo nas ruas e se cruzar, faça-se invisível e a mim também.
não vai doer nada, já não dói. sabe-se que não dói.
insistir. deixar que essa zona magnética nos capture mais uma vez. voltar.
existe uma tensão que atrai. existe uma atração tensa.
estar longe só dá a falsa impressão de alívio e saudade. a falsa impressão de saudade e alívio.
afia-se facas para cada confronto. afia-se línguas. cega-se olhos. cega-se verdade.
cala-se. fala-se. trai-se nas palavras a sinceridade que falta aos gestos. traidor e criatura.

terça-feira, julho 01, 2008

Em vão

Mordo a mão na necessidade de conter seus impulsos de agarrar o telefone.
Mordo os lábios na intenção fraca de calar as declarações que quero te fazer.
Mas são as lembranças que me assaltam insistentes
Só porque não as consigo morder.


sexta-feira, junho 20, 2008

Eu sinto muito o tempo inteiro.
sinto muito por ter pisado no seu pé, esbarrado em alguém no ônibus.
Sinto muito por ter me atrasado, sinto muito porque alguém morreu.
Sinto muito por vc que tá triste, sinto muito por vc que não gosta do meu cabelo.
Sinto muito por ter falhado. Sinto muito por ter estragado tudo...
Mas o melhor é sentir muito quando é coisa boa:
Sentir muito tesão ao te tocar
Sentir muito desejo de coisas novas
Sentir muita admiração por alguém
Sentir muita vontade de criar
Sentir muito carinho pelos amigos
Sentir muito frio na barriga ao te ligar
Sentir muita força vinda do nada
Sentir muita saudade do que foi bom
Sentir muita vontade de repetir
Sentir muita algria ao fazer o bem
Sentir muita energia boa vindo de alguém
É... eu sinto muito.
E sinto muito por quem não sente nem um pouco.

Rúbia Romani

O espírito dessa mulher não lhe cabe
Transborda por todos os poros
Enche o ar de sensualidade
Faz os olhos pularem de curiosidade

O espírito dessa mulher é transparente
Chega primeiro, vai de encontro, desassossega
Enche o ar de erotismo
Faz os olhos fixarem seu sorriso

O espírito dessa mulher doa
Entrega ao mundo qualquer coisa de leveza
Enche o ar de simpatia
Faz os olhos chorarem de alegria

O espírito dessa mulher é brasa
Traz calor pra toda festa
Enche o ar de fumaça
Faz arder os olhos de tanta graça

Amiga linda, Amo vc!Se cuide e SEJA sempre!

domingo, junho 01, 2008

Tudo o há é o que já estava lá*

Esbarrei com pessoas... dessas pessoas que têm muito mais do que preciso do que qualquer trabalho remunerado pudesse me proporcionar. Pessoas ricas em coisas que não têm preço, e ansiava por encontrá-las sem saber onde.
De quando em quando, Curitiba me mostra que as coisas sempre estiveram ali e eu que vagava, e essa questão põe em cheque minha própria existência. A pergunta deixa de ser: "Nossa, onde você andava que nunca nos esbarramos?" para ser: "Onde estava eu que nunca te vi antes?"
Talvez o Rio fosse grande demais e a gente não se cruzasse. Mas talvez minha percepção tenha sido muito pequena, limitada. E hoje eu tive a sensação de estar "no lugar certo na hora certa". e fui eu que cheguei. Nunca tarde demais. E fui eu que calei. Nuna cedo demais. E algo em mim mudou, algo grande demais. E eu agredeço a vida, boa demais. Por essas coisas que não têm como medir. As idéias.
Essas coisas vivas demais.

*menção ao trabalho lindo do meu amigo Tom Lisboa, que fala poeticamente sobre as coisas que sempre estiveram lá e nunca foram ou serão iguais aos olhos de quem as vê. www.sintomnizado.com.br/tudooqueha

segunda-feira, maio 12, 2008

Embora II

Ei! Não levanta daí, não levanta! Onde vc pensa que vai?Espera! Volta aqui, senta ali, onde vc vai? Não abre essa porta, pára! Eu mandei não abrir! Onde vc vai? O que que vc tá fazendo?
Se vc pisar nessa escada... espera! Não vai! Escuta aqui uma coisa! Volta pra dentro agora! Chega disso. Sobe aqui de volta! Espera! Não sai! Não sai pra rua! Escuta... Volta pra dentro! Eu não quero ficar gritando aqui pra vizinhança ouvir! Nem pense em dobrar a esquina! Volta aqui!! Onde vc... merda! Merda!

sábado, maio 10, 2008

Embora

Lembra de ontem quando saiu lá de casa deixando o ar ainda quente, partindo em direção oposta?
Eu ainda recobrava minha lucidez buscando seus pedaços nos cantos do teto e dos móveis porque ela sempre sucumbia ao seu toque mais sutil e despedaçara-se já no primeiro, o da campanhia. E ainda que resolvesse, enfim, usar a chave não resistiria ao som dos seus passos.
Eu estou sob sua pele, meu oxigênio estão nos seus pêlos. Fragmentos do seu corpo são minha memória mais recente e é tudo muito colorido...
Seus olhos, suas orelhas, seus dentes, o dedo indicador direito, o joelho, atrás do joelho, o antebraço esquerdo onde eu ficara agarrada por minutos a fio ouvindo seu sangue correr nas veias azuis proeminentes, tão certa de que você existe, tão feliz por você ser vivo!
Lembra de ontem quando saiu lá de casa deixando o ar ainda quente, partindo em direção oposta?
O barulho da chave no aparador não me enganou. Era a sua. Era a última vez.

quarta-feira, abril 30, 2008

De deixar incrível

Meu amigo Renato Santoro é baterista há muitos anos, está terminando sua licenciatura em música na Uni-Rio e por isso vem dando aulas pra crianças com idade entre 2 e 6 anos.
Ele contou que um belo dia, no parquinho da escola, alguns de seus alunos brincavam numa casinha e o Renato fez que queria entrar na casinha. Alguns meninos logo disseram: "Não, você não pode entrar, você é adulto". E ele: "Não, eu não sou adulto, não, eu vou entrar." E aqueles: "Você é adulto sim. Não pode entrar porque é adulto!" Eis que chega um outro aluno e parte em sua defesa: "Não. Ele não é adulto não, ele é músico."

É charuto ou não é?

sábado, abril 19, 2008

Rugas

Eu já tenho rugas embaixo dos olhos.
Hoje notei que envelheço e de repente pensei que talvez seja a maquiagem ou a falta de vitaminas ou então porque quase não bebo água. Daí pensei que essas rugas e olheira são de sono e muito trabalho ou que talvez sejam da minha pele mesmo ou solidão.
Talvez porque me expresse demais pelo olhar e os olhos cansem, talvez porque tenha me expressado pouco e a cara não resista ao olhar gelado e vá cedendo. Talvez seja muito computador, talvez seja pouco chôro. Chorei ontem. Mas não esse chôro. Chôro de ter visto coisa bonita ou algo que faça o coração se espremer, a respiração suspender, o rosto contrair, coisa de se emocionar como quando a gente vê ele dormir ou espera ele chegar ou quando ele chega mesmo.
A pele melhora quando a gente faz amor ou quando simplesmente troca energia boa. A pele melhora se a gente diz e ouve mais coisas positivas que negativas, se a gente deseja mais o bem que o mal.
Isso também pode ser.
As minhas rugas devem ser de medo e ansiedade e uma ou duas de um amor não correspondido.

segunda-feira, março 31, 2008

Cruel

O frio fio fino da navalha traça um risco de amor que é cego.
Sob a carícia da lâmina que brilha

abre-se a pele em dor sem medo.
Vertendo pelo pescoço
banha-lhe as costas

lava que brota de fendas na pele alva
a alma em postas.

sábado, fevereiro 02, 2008

Tempos de escola

Estou lembrando do meu amor de escola
daquele jeito todo dele de cheirar o meu cabelo
de me ajudar com os trabalhos
de me levar pela mão até em casa

Tínhamos um beijo de dentes batidos
um abraço afogado, uma urgência nos olhares,
uma timidez nos gestos
e quatro mãos curiosas, exploradoras e cegas

E tínhamos física e química e espanhol
tal idioma maldito que se embolava nas nossas línguas
e a dele na minha, e a minha na dele
olhos bem fechados pra não escapar a concentração

Então a vida deu um salto pra fora
a minha para lá, a dele para cá
E fomos nos encontrar por acaso e falar da adolescência
e rir com as lembranças

E se encontraram também nossos lábios, afinal
e os dentes não se batiam mais
os dentes agora mordiscavam língua, lábios e pescoço
porque perdera-se a timidez dos gestos

E fomos embora juntos, eu para cá, ele também
e nos amamos tão adultos
e apesar das mesmas mãos curiosas,
os olhos eram abertos pra não escapar o momento

E fomos acordando devagar
e nos arrumamos devagar e nos abraçamos numa respiração longa
e nos olhamos pela última vez
com a calma de quem sabe que a vida não pára de saltar


*Ao Diego Machado, meu amor de escola

domingo, janeiro 13, 2008

Interrogativas

Onde estão as cores de Oliver?
Saiu de manhã para tomar sol?
Será que podemos voar até lá?
Quando pararemos de rezar?
Quem arrumou os lápis na gaveta?
Até aonde parte para sempre?
Quem pegou a saia chá de Beth?
Onde pousaram as mariposas de ontem no quarto?
Quando começa o próximo passo?
Onde se esconde o conde que perdeu o bonde?
Quem começa o trava-línguas?
Álguém tem uma palavra nova pra Hernandez?
Querem ouvir uma música sublime?
Para onde carrega Helena Tainá nos olhos?
Quantos metros quadrados de sorriso há numa nova paixão?
E se eu desistisse de vestir?
Quantos dentes de João se vê nos seus sorrisos?
E nos meus olhos, quantos sorrisos de João há?
Já tentou fragmentar um movimento?
E a saudade?
Quem vai às compras em plano médio?
Há amor a primeira vista?
Que mal há em não dizer o que pensa?
Como se desenvolve um cacoete?
Da repetição aleatória e eterna?
E a obsessão?
Já escreveu palavras que não soubesse?
Estamos chegando?
Até onde está para lá?
Quanto do céu é muito tempo?
Da terra é menos?
Você vem comigo?
O que há atrás da pele branca dele?
Pra que lado as piruetas são mais fáceis?
Quem gostaria de falar?
Por quanto tempo você é capaz de discutir um mesmo assunto?
Qual a principal característica dos fracos?
E dos fortes?
Tem certeza?
Por que não toca o telefone?
Se tocar, você atende?
O que há pra fazer em oito dias?
É pra usar a criatividade?
...

sábado, dezembro 01, 2007

Cenários para uma vida

Eu morei numa casa de fazenda.
De manhã, ordenhava vaca, dava milho às galinhas, cuidava da horta.
À tarde lia livros na varanda e assistia meu cão caçar rolinhas.

Eu morei numa casa de palafita na margem de um rio negro. Em época de cheia, molhava-me até o joelho pra buscar velas na cidade quando queria ler até mais tarde.

Eu morei num chalé no meio de uma floresta. No inverno, assava bata-doce na lareira e no verão, esquilos bagunçavam minha cozinha.

Eu morei num apartamento de paredes de vidro e decoração moderna no vigésimo andar de um prédio em frente ao Tamisa. Meu closet era organizado por cores e eu tinha cento e vinte e sete pares de sapatos de salto.

Eu morei num conjugado em Copacabana. Toda noite tinha briga nos corredores e pessoas transando nas escadas.

Eu morei numa república com três coreanos, um austríaco, duas americanas, um peruano e uma sueca. Toda quinta tínhamos vinho, carteado e alguma comidinha diferente. De manhã brigávamos porque ninguém queria lavar a louça.

Eu morei numa barraca azul numa comunidade hippie e todo dia dançávamos pro mar e nadávamos nus e no pôr do Sol, deitávamos na areia em silêncio até a lua chegar lá em cima.

Eu morei num navio onde fazia shows quase toda noite. Blues, valsa, can-can. Conhecia muitas cidades, muita gente interessante e ia dormir só na minha cabine sem janela.

Eu morei numa casa de porta e janelas azuis. Tinha flores na entrada, dois filhos no jardim de infância, um cachorro no tapete e um marido lindo que toda quarta jogava tênis com os amigos do trabalho.

Eu morei numa casa de gelo e um urso polar devorou meu São Bernardo.

Eu morei num apartamento de paredes coloridas. Tinha um sofá branco e eu mesma costurava minhas cortinas e almofadas. Recebia amigos pra jantar e ouvia jazz enquanto cozinhava.

Eu morei numa casa enorme num vale. Passava o ano ocupada com o jardim, o crochê e a tapeçaria. Até que chegavam as férias e meus netos disputavam aos gritos meus beijos de “boa noite”.

Eu morei num quarto embaixo do telhado da casa de uma senhora que de três em três dias pegava umas flores no jardim e arrumava-as no vaso em cima da minha penteadeira.

Eu morei num apartamento térreo junto ao Teatro. Ia sempre a pé trabalhar e no caminho cumprimentava meus vizinhos. Então nas minhas estréias, eu era sempre prestigiada por rostos conhecidos e recebia muitas flores e presentinhos.

Eu morei numa casa de esquina que meu bisavô ajudou a construir. Meus filhos vinham da universidade em feriados prolongados e nas férias viajavam cheios de amigos e mochilas.

Eu morei num sobrado em cima de um açougue.
Quase todo dia, quando chegava, o açougueiro tinha de limpar a porta onde de madrugada escreviam: “Carne é Crime”.
E da minha janela eu podia ver que ele não se importava.

Eu morei num trailer num estacionamento de frente pro rio Elba. Em noites de calor, dormia numa esteira na margem.

Eu morei no centro de uma cidade muito grande todos os andares do prédio eram lofts. O meu era o último. Tinha uma varanda em toda a volta, pé direito altíssimo, uma parede toda de vidro e um Labrador que destruiu minha coleção All Star.

Eu morei numa casa que fiz de albergue. Então era sempre muita gente por todo lado. Me pediam mais uma toalha, mais um travesseiro, mais um dia, menos vinte porcento, baralho, sugestão, companhia.
Alguns iam e voltavam. Alguns iam e mandavam postais. Alguns vinham e ficavam e se tornavam da família. Outros nem consigo me lembrar.




Duas ou três coisas

Andou para lá da sua casa duas, três quadras naquela direção. Pôde jurar ter visto... e se esqueceu.
Percorreu aquele caminho com o pensamento vagando entre coisas que já nem saberia dizer... Duas ou três quadras dali e parou.
Pensou em qualquer razão pra continuar e não achou. Também em voltar não viu razão.
Então sentou-se no meio-fio frio e estranhou o conforto. Devia estar cansado. Pararam dois carros a sua frente e foi obrigado a mover-se dali. É bem verdade que permaneceria ali para sempre, inerte, absorto em pensamentos que já esquecera. Mas caminhou de volta duas ou três quadras que ele já nem reconhecia.
Dentro de casa havia uma esposa que ele se esquecera de amar por tanto tempo que ela foi virando vapor e se dissipou. No entanto, ele continuou parado no meio da sala como se fosse possível fitá-la. Olhar fixo nela como se fosse possível reconhecê-la e desistiu. Caminhou até a varanda onde o vento batia forte bagunçando seu cabelo, obrigando-o a respirar o mar e talvez fosse esse o maior de todos os sés prazeres na vida, mas já não se lembrava de nenhum.
Ouviu uma voz esquisita ao longe. Foi procurar. Uma mulher negra cantava na cozinha. Ela sorriu para ele, apontou para o fogão onde duas ou três panelas cheiravam e pôs-se a gargalhar com dentões brancos que ele não lembrava e foi virando vapor e se dissipou. Perdeu-se naquela cozinha esfumaçada.
Ele correu pro fogão a acudir uma única panela que queimava vazia. Queimou os dedos, abriu a torneira, respirou fumaça e quis xingar. Porém não se lembrava como.
Foi ao banheiro buscar qualquer coisa para os dedos que ardiam e ao girar a maçaneta da porta trancada ouviu: “To aqui, espera!”, largou-a num susto e a porta abriu-se lentamente revelando um banheiro úmido de espelho embaçado. Sua filha virara vapor e dissipara-se.
As pontas dos dedos ardiam, mas já não se lembrava de queixar-se. Teve sono. Estava exausto. Já não encontrava seu quarto, seu pijama. Adormeceu em pé, encostado na parede colorida do corredor. Dormiu dois ou três dias e isso não fazia diferença quando despertou. Descolou-se da parede em direção a sala carregando sua silhueta verde grudada às costas. Deitou-a no sofá pra descansar e também ela foi virando vapor e se dissipou.
Já não se via em lugar nenhum da casa. Não se reconhecia em espaço e tempo algum. Quis chorar mas não lembrava-se como. E não lembrar doía duas ou três coisas que ele não podia sentir porque já não sabia...
E foi virando vapor... e se dissipou.

(P) Tenso

Está esticada entre nós uma linha tênue de tensão.
Já não falo sem medo nem te olho sem desconfiar de que a qualquer instante a linha se romperá.
E você, pobre coitado, a buscar em mim algo que te lembre de gostar.
E tantas vezes não encontra para em tantas outras encontrar coisas gostáveis, gastáveis.

É que o gostar não está no outro, nem adianta procurar.
Gostar não é verbo de fora pra dentro, é coração e é traiçoeiro.

Pra perder um grande amor

Pra perder um grande amor
Tem que haver mais que discussão
Tem que faltar carinho, compreensão.

Pra perder um grande amor
Não é questão de incompetência
É preciso mais que desatenção
Bem mais que impaciência

Pra perder um grande amor
Tem que haver mais que traição
Tem que faltar diálogo, perdão.

Pra perder um grande amor
Não é questão de ignorância
É preciso mais que confusão
Bem mais que arrogância.

Pra perder um grande amor
É preciso ter deixado de gostar
Ter perdido a importância

Senão, dois não se separam.
Não há porquê.
Se uma conversa e um abraço reparam
Pra que insistir em doer?

Ser e não ser

Homem sem amor é só Humano
Homem sem amor é raso.
Homem sem amor é quase vão
Homem sem amor é negação
Homem sem amor é água morna
Homem sem amor não tem porquê
Homem sem amor cara blasé
Homem sem amor a alma seca
Homem sem amor o corpo peca
Homem sem amor pernas sem rumo
Homem sem amor é voz calada
Homem sem amor é mão lavada
Homem sem amor é quase quase
Homem sem amor não faz sentido
Homem sem amor vestido antigo
Homem sem amor copo vazio
Homem sem amor ressaca braba
Homem sem amor casa arrumada
Homem sem amor comida fria
Homem sem amor, amanhecer sem dia.
Homem sem amor papo furado
Homem sem amor é Djavan
Homem sem amor capa de chuva
Homem sem amor é só amigo
Homem sem amor ao pé do ouvido.
Homem sem amor jantar sem pressa
Homem sem amor calma fingida
Homem sem amor falta uma peça
Homem sem amor o sangue esfria
Homem sem amor é língua presa
Homem sem amor tem tempo morto.
Homem sem amor, medo.
Homem sem amor, pássaro pousado.
Homem sem amor, massa folhada.
Homem sem amor não é piada.
Homem sem amor canção no rádio
Homem sem amor, cem pensamentos.
Homem sem amor lugar comum
Homem sem amor é morte lenta.
Homem sem amor dentro de si
Homem sem amor, viagem curta.
Homem sem amor lexotan
Homem sem amor jornal da tarde
Homem sem amor assunto sério
Homem sem amor espeto
Homem sem amor novela
Homem sem amor amor sem Homem
Homem sem amor sem Homem
Homem sem Homem
Homem e só.
Homem só.

Bad day Good day

Estou me sentindo burra.
Quero saber mais filosofia.
Quero entender sobre a atualidade.
Quero ter uma vaga idéia de onde vamos parar.
Quero ter opinião.
Preciso ler mais.
Ler coisas que me despertem o entendimento, que contribuam para minha formação enquanto Ser Pensante (eca).
Quero conhecer gente.
Gente que me diga coisas que somem (e sumam).
Quero ouvir sobre o mundo e ser capaz de desenvolver uma percepção que me clareie idéias.
Quero minhas frases. Quero minhas frases capazes de contribuir para a produção de alguma informação que valha.
Estou no mundo e não sei nada.
E não sei por que tudo em volta me surpreende ao mesmo tempo em que chateia.
Estou cega no mundo.
Farta da minha ignorância.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Alma diluída

Diante do espelho
Notou-se cozida em água fria.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Lágrima

Dentro de mim há um buraco.
Tenho muito medo de cair lá dentro.

Não há nada lá além de mim mesmo.
Tenho muito medo de cair em mim.

domingo, outubro 14, 2007

Só chove

Chove e eu tenho livros.
Chove e eu tenho edredom.
Chove e eu tenho filmes.
Chove e eu tenho sopa.
Chove e eu tenho brigadeiro de panela.
Chove e eu tenho meias.
Chove e eu sou só.

sábado, agosto 18, 2007

A você

Não tem jeito de despedida essa última vez que faço o caminho de você para meu trabalho. Deve ser a ficha entalada na garganta junto com as milhares de coisas que tenho pra te dizer. Ficha que não caiu, palavras que me fogem boca adentro e se perdem dentro de mim, se escondem em meus pulmões, brigam espaço com minhas veias, furam meu estômago, meus ossos, causando dor, asfixiando, fazendo chorar.
Há tanto ainda a ser dito...

Obrigada.
Por você ter se jogado, ter se permitido.
Obrigada.
Por você ter me correspondido, por ter se empenhado.
Obrigada.
Por você ter confiado em mim para chorar, para ser.
Obrigada.
Por ter me dado a família que sempre quis e por acreditar nela. Eu acredito.
Obrigada.
Por cada momentinho inédito ou não que foi especial por ter sido só nosso.
Obrigada.
Por me achar linda e me dizer e me mostrar.
Obrigada.
Por me criticar, me brigar, me reclamar, me corrigir, me melhorar.
Obrigada.
Por me ouvir, me entender, por argumentar.
Obrigada.
Por me incentivar, acreditar em mim, me emocionar...
Obrigada.
Por ecrever, por cantar, por contar, por tocar, por pedalar
para eu ler, ouvir, chorar, acompanhar, vibrar.
Obrigada.
Por ter tentado tudo, por ter pedido pra eu ficar, por ter se arrependido, por ter me querido tanto, por ter me amado o muito, por ter me libertado.
Obrigada.
Por ter sido a melhor parte de mim e por permanecer.
Obrigada.

Culpa

Existe um lugar no ano que permite que sejamos
Existe um vazio na melodia que permite um improviso
Existe uma distância entre o “ser ou não ser” que grita uma fuga
Existe um lugar aonde dentro de cada um acontece o encontro com o pior de si
Existe um vazio no lugar comum que permite uma queda
Existe uma distância entre o passo e o ficar que sugere a hesitação
Existe um lugar onde há perdão

Existe um vazio onde se esconde a culpa
Existe uma distância entre nós dois que é nada mais que uma desculpa
Existe a desculpa
A des-culpa.

Por amor

Ele a olha tristemente
Sente-se vencido, já nem canta mais
Ela sabe o que fazer
“E se ele não sobreviver?”
“E se eu não sobreviver?”

A garotinha agarra no banco, posiciona-o diante da janela escancarada, trepa nele com cuidado de equilibrista, estica-se para cima e com algum esforço (porque o outro algum, que completaria o todo, não tinha certeza) ampara a gaiola com uma das mãos enquanto deixa correr a outra sobre a portinhola que se abre lentamente. O passarinho hesita um segundo, a menina sente seu coração bater mais forte, então ele toma a decisão e ganha o azul do céu. Ela nem pôde tocar-lhe as penas pela última vez. No entanto acompanha seu vôo céu afora com um sorriso, os olhos miúdos querendo chorar e o coração apertado meio triste, meio feliz. Metade saudade, metade coragem.

Se ela logo fechou a janela e foi ver os desenhos ou se ficou a sofrer em sua cama a falta que lhe fazia o bichinho, não sabemos. Há quem diga que depressa voltou-se para suas bonecas e que vestia-as e penteava-as. Numa um rabo-de-cavalo, na outra os sapatos de fivela. Mas que de noite, quando se foi deitar, apesar do frio lá fora, deixou entreaberta a janela aonde ainda pendia a gaiola.

Por fim

Que te dei eu?
O impulso para acreditares que funcionaria
O impulso que te falta para tudo
O impulso.
É isso que sou, é o que tenho.
Aquele impulso que te leva a dar o primeiro passo para não estares parado.
O mesmo impulso que amaldiçoas por te encontrares agora perdido num caminho que nem fazes idéia. Caminho esse que te culpas por teres escolhido e nem lembras se de fato escolheste.
Um caminho que já não queres apesar dos inúmeros “e se...?” que, sabes, carregarias para sempre.
Pois bem. Que seja minha a mão a guiar-te. Deixa cair sobre ela a última gota de confiança que tens guardada.
Não te desapontarei. Também eu tenho razões para me redimir. Tenho sim responsabilidade por ter te empurrado a um caminho que já não posso prometer não haver abismos porque, de sinuoso que é, perdeu-se da minha visão ele também.
Aceita minha mão pela última vez.
E não perguntes se estou certa do que faço pois para mim, a certeza é estrepe. Mas sossega se te digo que ver-te em paz serve-me de alento.
Trilharei novos rumos, terei outras companhias que isto é fatal.
Mas não antes de te deixar em terra firme onde te sintas seguro e possas respirar e enfim percorrer com tuas próprias pernas os lugares que te coração inventar porque que ele se engana, se engana. Mas só quer acertar.

Puta da vida

Puta da vida.
É isso que eu quero ser quando eu crescer
Andar pela noite colorida que nem borboleta, mascar chiclete com a boca aberta...
Fazer sucesso com os rapazes.
Usar as roupas mais doidas sem que ninguém me encha o saco.
Fazer o quiser com meus cabelos. Vou pintar de loiro. Loiro com mechas ruivas. Ruivas, não! Cor-de-rosa.
As unhas serão sempre vermelhas e com glitter. Aliás vou usar glitter nos olhos também, por cima da sombra azul. Cílios postiços... ou não, às vezes um bom rímel resolve.
Eu vou poder fumar cigarro!!
Ninguém se incomodará, aposto. Ainda mais se eu estiver usando um vestido bem decotado. Vermelho.
Eu vou dar pra quem eu quiser!
Jamais ouvirei alguém me dizer: “Nada de sapatos de salto, fazem mal pra coluna.” HAHAHA...
Meus saltos serão os mais altos!
E eu vou andar neles sem cair. E vou rebolar muito quando andar. Todo mundo vai me chamar de gostosa.
Ah. E eu também vou mudar de nome. Meu nome será... Pietra. Pietra, A puta. E nunca mais vou ouvir : “Alice Paula Matoso Vieira” O que sempre me deixou muito, muito puta da vida
.

Solidão

Antes que eu pudesse ver de novo, sumiu.
E o que nada era antes continuou.
Então foi estando assim, foi permanecendo
Eu olhando e vendo aquilo
aquilo que continuava nada como antes
Não sendo vazio nem cheio, não sendo
Eu ali parado a pouca distância daquilo
Olhando fixamente para encontrar
E fui caminhando em sua direção lentamente
com cuidado de quem não quer ser escutado
e tomei o seu lugar.

Aquilo agora ocupava todo meu redor.
Ao redor havia mais nada
e só isso comprova que eu estive ali
Então comecei a correr de um nada pro outro
Tomando furiosamente seu lugar
Preenchendo o espaço
E de tão rápido que eu era
me via no caminho quando já havia chegado
E a idéia do nada estar povoado de mim me fez parar
Eu preferia estar só.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Amor Ciclista

:::O amor cometeu uma imprudência
Aconteceu de se espatifar
Doia rim, costela, consciência
Não parava de chorar

Dias no hospital para que tivesse melhora
Cuidados dignos de atleta
Mas confessou não ver a hora
De voltar para sua bicicleta.

E fez exames, fez charminhos
Até piadas fez
Ganhou conselhos, carinhos
E foi cair outra vez!

Esse amor, quanto me apronta!
Já de manhã quer pedalar
E eu fico em casa tonta
Preocupada, a rezar

Mas eu entendo a sensação
O vento na cara, a liberdade
Então aperto o coração
E o deixo à vontade

Até eu me aventurei
Glória, Leblon, Joá
2 ou 3 vezes me espatifei
E nem estava a pedalar!

O amor tudo me ensina
A clipar e desclipar
Se eu caio, não desanima
Logo se põe a me zombar

Esqueçamos os acontecimentos
Quero que sigas pedalando em paz
Porém, fique mais atento
E não caia NUNCA mais! :::

quarta-feira, agosto 30, 2006

Terra-firme

Eu estou ao teu redor - quero pensar.
Na margem
A vigiar teus olhos
Para não baixarem

Soltas, correm tuas mãos
propagando as ondas
que me gritam aos ouvidos
coisas que mais temo
As ondas que me trazem
de volta para praia
cada vez que, confiante
me jogo n'água
E que, vez em quando
vêm molhar meus pés
para mostrar o tanto
que me cabe
e eu agradeço.

Posso notar teus olhos baixarem
Te alerto - Erros devem ser admitidos
Tu te esforças
é verdade
Me orgulha ver

Do meio do lago
olhos duros para frente
percebes meus sorrisos?
Não atentas que aceno?

Me arraste para o lago
não queres?
Nademos juntos
não queres?
Não baixa teus olhos
não vês?
Me afogo fora d'água

sexta-feira, agosto 18, 2006

Delírio

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci...

Olavo Bilac

Belíssimo.

sexta-feira, julho 14, 2006

terça-feira, junho 20, 2006

Coisa boa é...

...o celular vibrar na minha mão e ser você;
e eu vibrar na sua.

quinta-feira, junho 15, 2006

amar

Faz pouco tempo, descobri que o amor pode acontecer de novo.
E que não basta sentir pra confirmar, se o amor só é amor quando pode amar.
Porque sem amar, é tristeza.

music

A música é como o vento soa aos ouvidos dos deuses.

quarta-feira, maio 24, 2006

Insônia Parte II

Não quero dormir sem você.

O que não tem solução...
merda!

terça-feira, março 28, 2006

Insônia parte I

Ai... dei uma cochilada assim que cheguei do trabalho e desde onze da noite não consigo dormir... To meio preocupada. Não me importo se vc não se importa, mas to afim de falar, ok? Não precisa ler.
Escuta, por que quando ouço um amigo que me diz pra me mandar, pra voltar pra Europa, pra viver a vida de louca, mochila nas costas, cultura, experiência, espontaneidade, dança, arte, morro de vontade de fazê-lo?
Por que me faltam respostas quando ele me pergunta "por que, então, puta merda, vc tá aí ainda?" Por que eu estou aqui ainda? Por que, pela manhã, as coisas me parecem umas e, à noite, já não me soam tão boas? Por que essa bipolaridade infernal??? Será que não consigo tomar uma decisão?
Meu tempo está acabando, entende? Eu quero dançar! Por que me afasto do meu sonho? Por que me afasto de tudo que me apresenta uma pequena dificuldade? Por que não consigo aceitar que não serei a melhor e ponto? Por que essa obsessão míope de querer ser boa pra caralho, saber pra caralho? Imaturidade da porra, isso sim!! Insegurança dos diabos! Vai tomar no cu!
Sabe o que pode ser isso? Medo da frustração. Eu posso ser uma daquelas pessoas que, tendo consiência que tudo corre o risco de falhar, não termina nada. POR ISSO estava te falando pra não me deixar desistir do curso no meio do caminho, meu caro! Tenho um puta talento pra abandonar as coisas. Me desapegar ou, simplesmente, acreditar que aquilo pelo que acabei de me apaixonar é o que eu sempre quis da vida.
Acontece que dói nos músculos, sabia? Dá enxaqueca, a porra toda!
Eu não sei pra onde ir! Mais uma vez. ODEIO "deixar a vida me levar"... porque não consigo admitir que, às vezes, é a única saída? Por que essa hipótese me dói, caralho?
Por que enxergo o que me vem sempre com melhores olhos do que o que tinha se o que eu tinha me fazia muito feliz tb? Ah, se o dia tivesse mais horas!!!!!
E li a Apologia de Sócrates. E quero ler de novo! Vai se foder, como condenam um cara daqueles?? Ai... o mundo já nasceu perdido, não vê?
quantas questões, meu Prazer, quantas questões! Que questões mais ridículas, né? Vc deve estar pensando... "tsc tsc pobre garotinha que não sabe nada da vida, se ao menos tivesse lido isso, ou isso..."
No que pensam as pessoas que me dizer pra ficar, estudar, trabalhar, ser uma cidadã comum? Porque acho que sei no que pensa meu amigo qdo me diz pra ser porra-louca. Ele espera que alguém o tenha como exemplo e que no final, dando tudo certo, ele diga: " ela fez exatamente o que eu disse e olha lá, que linda..." ou não! eu poderia me foder de verde e amarelo e ele talvez dissesse: "è, minha cara, essa opção não é pra todo mundo" Ou não! Talvez ele não me deixasse foder com as coisas. Ai, que viagem ridícula!
no que pensam os que me pedem pra ficar? No que é melhor pra mim? é nisso que pensam? Se baseiam em suas próprias experiências? Deveria, de fato, dar ouvidos a elas? Pra ele foi ótimo sair por aí, se prostituindo, dirigindo ambulância pra sobreviver... hoje as pessoas acham ele um merda e ele se acha tão bom, que nem sei em quem acreditar. Melhor apostar nos meus sentidos, pelo menos dessa vez. Pelo menos na dúvida. PUTA QUE PARIU meus sentidos não me indicam um caminho, UM, 1, único!! Porra que pessoa múltipla que sou!!! Quando paro pra pensar em coisas que poderia fazer... eu poderia fazer tudo! Eu gostaria de fazer tudo! Isso me enlouquece porque... eu quero fazer tudo e não posso e porque talvez isso seja uma grande mentira!!! AAAAAAAAAAHhhhhhhhhh... me salva! Tenho que conseguir dormir. Sou mesmo bipolar e ciclotímica. Nada como um dia após o outro. Até quando?
Obrigada por me ouvir. De uma forma ou de outra.

beijos.

sábado, março 18, 2006

Dança

Desconfie da mulher que não sabe dançar.

sexta-feira, março 17, 2006

Sem título

Acho que a crise não está, exatamente, no que você vem falando em suas aulas. Ok, é inútil tentar identificar onde está a crise. Não tenho essa pretensão. Basta saber que ela existe e que é muito bom mesmo que exista. Até porque, muito do que você diz, eu reconheço. Já passou pela minha cabeça, faz muito sentido pra mim, não é de todo novidade. Só que a gente tende a afastar aquilo com o que não consegue lidar. É bem comum isso, cacete, você sabe melhor que eu, falou disso hoje! Nem sei mais o que eu aprendi com você e o que já sabia... melhor aceitar que não sabia nada porque saber e não compreender o que se sabe, não aplicar ou não poder expressar em palavras é uma merda, é o mesmo que nada ter. E se eu estou escrevendo sobre isso, ainda que de maneira bem pobre, ah... é porque...
O ponto era esse: há alguém com capacidade de verbalizar e, assim, esclarecer e divulgar aquilo que me faz entender tudo e nada em tantos momentos, percebe?
E ouvindo você falar, ouvindo alguém falar e falar tão bem é como se... ok, vamos lá:
Eu tenho um monte de argila e vou pra sua aula. Saio de lá com um vaso. A argila é minha. Mas ela seria argila pra sempre se você não estivesse ali, me ensinando a moldar. Confesso que em muitas partes do vaso você mete a mão e faz sozinho. É bom poder contar com isso. Só quero que você se sinta feliz por eu ter a argila (você vê a argila em minhas mãos, ou eu estou viajando?). É bonito ver que, para quem não tem argila, você traz um tanto da sua pra emprestar. Há quem a pegue para tentar moldar e é importante que você veja isso. Porém, você me aponta que muitos simplesmente não a querem. Isso me entristece e não, ao mesmo tempo... que merda.
Eu tenho a argila e me sinto estranhamente especial por isso. Mas quero uma coleçããããão de vasos, e sua ajuda é muito importante pra mim, percebe? E... eu sei que existem coleções e coleções de vasos, claro! Quero ser capaz de moldar sozinha porque desejo uma coleção infinita... Será possível? Você me mostra que sim, o mundo me grita que não. É porque tem capacidade limitada!

Não vê que existem pessoas disputando o tamanho de suas coleções? Colecionadoras de vasos sanitários, feitos de barro, isso sim!
Foda-se! Não me importo! Eu quero produzir, quero moldar! E se me faltar argila...
Bom... não temo que me falte argila, vez ou outra, se você ainda estiver por aí. É bom que esteja. Vou precisar de você para quebrar meus vasos quando, em momentos de descaso com a vida, eu acreditar que a coleção está grande o bastante.

sábado, março 11, 2006

Sintomas de um dia bom

Há algumas coisas que acontecem em mim que me fazem perceber que o dia é bom, antes mesmo dele virar noite. A essas coisas eu resolvi dar o nome de “Sintomas de um dia bom”. Hoje eu apresentei alguns desses sintomas.
Pra começar, eu saí da faculdade amando o Sol que brilhava forte e, em silêncio, disse: “Obrigada, Vida!” Tropecei nos degraus do ônibus e ri de mim mesma com mais duas ou três pessoas e até fiz piadinha disso. Durante todo o percurso, tinha um sorriso idiota no meio da minha cara e meus olhos piscavam lentamente fazendo charme pro Sol, namorando o Rio, enquanto eu me fazia cafuné...
No centro, ainda pela janela, vi um monumento que ostentava uma plaquinha onde estava escrita a palavra AMIZADE. Puta merda! Se tem uma palavra que me faz pensar, sorrir, sentir prazer, é AMIZADE.
Enfim, caminhando pela Rua do Ouvidor, olhava pra todas as pessoas procurando, sem querer, a tal da essência. Pode rir. Confesso que senti vontade de ver o mundo através dos olhos de muitas delas. E a tantas outras eu desejei que pudesse emprestar os meus que ainda se surpreendem carregados de otimismo, esperança e muitas emoções que fazem a realidade – a minha? – valer a pena.

Foi quando me pegou de surpresa a necessidade de compartilhar com você essa experiência e fui obrigada a me debruçar num balcão dos Correios pra escrever tudo isso. Mas agora eu quero continuar caminhando pra aproveitar esse dia que a sua aula deixou tão bom.

Você é especial.

segunda-feira, março 06, 2006

o dia de ontem

ai, que doidera!
ok.. isso não é um diário!
Vou ser breve, prometo.
Carnaval, samba, gatos, gatas, praia, Ipanema, japonês, chuveiro, cama, filme, sono!
"Um estranho no ninho"
maravilha!
ok... Hoje começam, de fato, minhas aulas. Começaram mesmo há duas semanas... mas ng vai antes do Carnaval!!!!
Perfeito.
To indo nessa.
Café e cigarro me esperam.