Mexo

Mexo
:::em tudo (foto: Rafael Bertelli)

quinta-feira, outubro 08, 2009

Contido

Toma, leva meu coração.

Tá aí nessa caixa. Leva. Porque aqui não tem mais serventia.

Leva meu coração e nota que pulsa devagar na calma de quem permanece junto.

Leva meu coração e nota que pulsa depressa na ansiedade de amar pra sempre.

E não se preocupe se morro se vê que morro de saudades antes, diante da sua partida.

Afinal, de que me serve no peito um coração partido?

Então leva embora contigo essa caixa pequenina onde o amor mais imenso que existe está contido.

Leva o meu amor contido, secreto. Leva nessa caixinha contigo. Segredo.

quinta-feira, outubro 01, 2009

Momento solto de inspiração forçada ou pouco clara - toda constatação é chata

Andava depressa, queria chegar logo. O sapato saia do pé, esfregava o calcanhar, esfolava o calcanhar - essa merda vai fazer bolha no meu pé - mas ela não pensava em tirar o sapato, eu hein, pisar nesse chão imundo e imagina se espeta o pé em algum lugar ou se alguma coisa espeta no pé dela? Um caco de vidro. Ela vê um caco de vidro no momento em que termina de pensar a frase sobre a coisa espetar no pé dela. Só de sacanagem, com o sapato que está grande, ela pisou em cima do pedaço de vidro deixando seu peso todo cair sobre o pé, exatamente como quem pisa em cima de uma lata para amassar e ocupar menos espaço no saco. O vidro ainda fez um barulho - não tem conversa, queridinho, tá espatifado - como se quisesse resistir. Ela seguiu andando depressa, o sapato ainda saía do pé, mas ela tava orgulhosa dele, fez as pazes com o sapato. E nem se importou quando depois das doze quadras ladeira acima, depois da festa, depois de não encontrar o que queria, depois de ser levada pra casa de carona completamente bêbada e vomitar pela janela; sentou no sofá solenemente, postura de bailarina, cruzou uma perna sobre a outra, arrancou o sapato e costatou a bolha enorme, já estourada, em ferida - essa porra vai arder muito no banho - .

sexta-feira, setembro 25, 2009

Andarilho

Eu que nunca tive nada
Ousadia, caixa d’água, pé no chão
Andando por aí
Olhando tudo
Com olhar desnudo
Percebendo fundo
A casa que mora
Em cada peito

Dessa gente
Que corre aqui fora
Num tempo
Inventado de hora
Tão longe de si
Tão perto do todo
De tudo
Da casca

Tão fora da casa
De dentro de si
Tão fora da casinha
A conhecer bem mais
Do que não vai lembrar
Bem mais tarde

Não põe alarme na entrada
Não digita senha
Não mura o quintal
Nem grades, nem trincos
Não tem medo de invasão
Perdeu a chave
Não tem migalha no chão
Não sabe o caminho
De volta pra casa

Segue reto
Essa gente em procissão
E eu que nunca tive nada
Só uma estrada sinuosa
Que ainda vai me levar pra casa
A casa que tem em mim

quarta-feira, setembro 23, 2009

A inevitável questão de te amar

Quem é essa pessoa que sabe tudo de tudo e me desafia olhando nos olhos?
Quem é essa pessoa que me julga deliberadamente e ainda me dá sentenças, me desprezando, me condenando bobo e feio e loucão?
Que pessoa é essa que me faz as perguntas mais absurdas nos momentos estudadamente inoportunos e que rompe aquela barreira do “eu não conheço bem você” pegando na minha barba e rindo de mim na minha cara?
E por que desperta em mim tanto medo e preguiça? Por que, sem desconfiar, me faz confrontar meu pior inimigo, eu mesmo? E por que me faz querer tanto derrotá-lo? Por que? Quem é essa pessoa que me faz repensar tudo quando eu já havia decidido as duas ou três coisas que me deixam legal e só? Como apareceu assim me fazendo questionar se duas ou três coisas bastam mesmo quando já não se é mais um só, já não se é só.
Eu não sou mais um pra ela, eu tenho título! Mas não sei onde guardei o diploma e talvez nem me importe saber... No entanto, ela vem vasculhar as gavetas, bagunçar tudo, procurar entre os papéis a prova e acaba se distraindo com os lápis coloridos, me faz um desenho, documento irrefutável; escreve lá em cima “PAI” com P virado e aí não tem jeito... sou eu quem dá a mão à palmatória, porque sou eu quem não sabe nada de nada mesmo.

segunda-feira, setembro 21, 2009

O lobo que matei ontem

Foi no dia 29 de setembro de 2009, matei um lobo da neve que morava num inverno denso de floresta na minha barriga. Abri buraco no lago congelado. Buraco que abri a marretadas com sapato de salto, orgulho de mulherzinha e joguei o lobo lá dentro. Enterrei no lago gelado o lobo que uivava no meio da tarde aqui dentro. E aí na primavera, vai que ele vira peixes, meu paraíso astral e é engolido por um ganso antes que eu me esqueça que não sei pescar e o lobo-peixe pare na minha rede, na minha panela e acabe na minha barriga pra inverno de novo.
Eu que não vou arriscar no horóscopo, roleta astrológica, pulei no lago pra tirar o lobo-em-cubo, esqueci que era gelado, não devia ter pulado, que se o inverno era floresta dentro, fora da pele é tão frio quanto. E o lobo que matei a marretadas de sapato de salto, orgulho de mulherzinha, morreu também afundado no buraco gélido e já não encontro mais ele aqui, só se mergulhar bem fundo e daí perco eu os sentidos e sentido já nunca foi meu forte, só a intuição. Então me deixo ficar na água fria e viro cubo porque primavera vem e viro peixes, meu ascendente, e se não vier, tanto melhor, alguém me bota em copo baixo, me rega com uísque e bebe toda, toda.

domingo, setembro 06, 2009

Malandragem carioca

Eu caminhava por Copacabana, um calor desgraçado. Copacabana aquele inferno. Tava indo pro bar do Caruso, hábito de anos.
Mas naquele dia, me surpreendeu à minha frente uma bunda fenomenal. Bunda assim daquelas enormes, estudadamente redondas, milimetricamente bem instaladas sobre um par de coxas... das coxas mais perfeitas já vistas aqui por essas bandas, garantido. Coxa de primeira linha, bem roliças, bronzeada... e seu não tivesse esquecido os óculos, podia apostar que era salpicada de uma penugem dourada... penugem... vertigem...

Ai, minha nossa senhora!

A morena mais charmosa de Copacabana. Igual a todas as outras nos sonhos: quer ser princesa, modelete. Puta da melhor qualidade, é de berço. Safada, vedete.
Anda com postura de rainha a coitada.
Que bunda! Que coxas!

Quisera eu ser o calor bandido que avança coxa acima, umbigo abaixo e mancha o vestido dela.
Quisera eu ser esse suor vadio, descer por entre aquelas coxas, lento, escorregadio...
Quisera eu fazer das minhas humildes mãos moradas praquelas nádegas, abrigar os mamilos nos meus dentes...
Morena de andar apressado, aperta sua flor num rebolado...
Quisera eu estar em casa à sua espera, pra refrescar seu corpo com meu sopro, secar sua nuca com minha respiração e te fazer suar tudo de novo.

sexta-feira, agosto 28, 2009

Aurora

Nada do que se queira é por vaidade, mas tudo o que aqui se fala é, em verdade, só querer. Eu quero te encontrar essa noite. Quero te falar ao ouvido as coisas que vivi em minhas viagens. Quero que saibas da minha vida, quero que duvides da minha coragem. Quero ver seu sorriso largo, debochado quando te disser que matei três dragões no braço, que peguei uma manada inteira num laço e que tudo isso eu faria de novo só pra ouvir essa tua gargalhada...
Hoje à noite vai ter festa
Na areia da praia, à beira-mar
Sob a luz prateada que a lua empresta
Para eu poder te achar

Tu sapateias louca na areia
Causando inveja nos mortais
Mulheres falam da vida alheia
Homens divertem-se no cais

Essas putas não me deixam! Querem meu dinheiro, meus cigarros! Não agüento mais aqui, vou até a areia falar contigo. Há tanta gente... quando enfim te encaro, a voz me trai. Espero então por um passo teu. Tu corres em outra direção. Doida, te atiras nas ondas gritando uma canção, e de novo me pego apaixonado a contemplar teu show...
É quando ouço as mulheres falando:
- Olha lá a Aurora querendo esquecer.
- Bebeu tanto a coitada. Amanhã vai sofrer.

Mas o mar ta é brabo nem ouço mais ela cantar...
A Aurora não sabe nadar, logo começa a tossir
Eu vou atrás dela tentar resgatar, ela grita “me deixa morrer! Me deixa aqui!”
Mas eu pego ela a força, ela não sabe o que diz, é muita água na ideia, eu não vou ouvir.

Já na areia, ainda fraca, a valente levanta e vem me bater. Me xinga de tudo que é nome, diz que eu não tenho o direito, que ela quer morrer.
Aí eu digo que é pra ela parar, que é pra pensar melhor, porque se ela deixar essa vida, eu vou ter que viver só. E que só eu não consigo porque também carrego dor aqui no peito:
- sem desmerecer teu sofrimento, teu bem tá morto, não tem mais jeito. O meu anda chorando por aí, e eu amo de longe por respeito. Ninguém pode trazer o teu amor de volta, que pra te ver feliz, eu mesmo já teria feito. Agora, não pede pra eu desistir do meu, porque tu não tens esse direito.

sexta-feira, julho 31, 2009

Lágrima de rio corre rosto até o mar

Correu até a beira do rio e se deixou cair exausta.
Ela enfim colocou as mãos sobre os joelhos e começou a chorar.
Morena, índia agachada na terra vermelha de barro.
Impulso que me tomou de imediato foi o de ficar olhando e obedeci.
Galego, branquelo em pé camuflado de mata.

Suas lágrimas brotavam dos olhos cascata, rio abaixo iam se dissolvendo, se misturando...
E fui obrigado a pensar nas quantas almas chorosas que, à beira dos rios, emprestaram o gosto de sal ao mar.

É que medo é pra quem tem

Eu não tenho medo do que perco e não que o que perca seja muito pouco. Eu só não tenho medo do que perco. Nem muito, nem pouco.
Eu não tenho medo de avião, só de decolagem.
Não tenho medo de provocação mas, de leve, se reagem.
Também não tenho medo de fantasmas porque não passam de bobagem.
Não tenho medo de ser só.
Não tenho medo de multidão e nem de escuro.
Mas escuro com muita gente, me dá um pouco de medo.


Eu tenho medo de me perder e não que eu seja muita ou coisa alguma. Eu só não tenho medo se tiver alguém por perto.
Não tenho medo de caminhar como se voasse.
Eu só tenho medo dos pombos que voam baixo e de qualquer lado pra outro.
Eu tenho medo dos deuses. Que fiquem putos comigo, não perdoem meus pecados e lancem chagas em castigo.
Mas só disso mesmo tenho medo. É que algum medo, ouvi dizer, até faz bem. Mas só sabe quem sentir. É que medo é mesmo pra quem tem.

segunda-feira, maio 18, 2009

Poemas Breves

Nightclub
"Chove lá fora e aqui..." neva.

***
Morto
Apareceu boiando rijo e teso nas águas do Rio Tejo

***
Carência
Meu coração, de tão frágil, quebrou-se ao pousar de uma mosca.

***
Agonia
Às vezes parece que tem uma árvore crescendo aqui dentro.

***
Propriedade
Tudo o que é meu é seu. Menos o que sinto.

***
Espera
Muita gente ao mesmo tempo tem me dado vontade de uma só

***
Ironia
Me gela a alma um olhar frio. Mas sei fingir que não esquento

***
Pae
Meu pai é uma licença poética

***
Entrega
Sou apaixonada pelo que me sorri

Felicidade

Desde que inventei que a felicidade é simples como bexiga de ar
Entendi porque a gente quando tá muito feliz pensa que vai estourar

para Juliane Engelhardt que faz minha Curitiba mais feliz

sexta-feira, maio 15, 2009

Eu sinto saudades da minha Vó Zélia

Minha vó tinha um par de asas grudado às costas
As asas batiam sem parar
Mesmo que ela não estivesse no ar

Eu não entendia tamanha esquisitice
Minha vó não me ouvia
Eu começava a gritaria

Eram grandes muito grandes
As asas que batiam sem parar
Fazendo som altíssimo no ar

Com as asas grudadas às costas
A minha vó não ouvia nada
Custei a entender a esquisitice

A minha vó era uma fada.


Até que um dia alçou vôo ao céu e nunca mais voltou
As asas pararam de bater
E ela não pôde mais descer

Ai, vozinha, que saudades de você!

quinta-feira, maio 14, 2009

Aquilo que me assalta vira e mexe

Foi depois daquilo - logo depois - que tudo ficou muito claro, compreensível como se se apresentasse em desenho ou como se eu tivesse engolido a cartilha daquilo em cápsula.
E então tudo foi ficando pequeno ao passo que o que era o todo, aumentava de tamanho diante da minha percepção privilegiada. E tudo com o que me preocupava foi ficando mínimo, e tudo pelo que me interessava foi mudando de forma e me fazendo mudar de idéia e mudar de novo e de novo... O que me fazia rir, chorar e rir e chorar ao mesmo tempo.
Correndo de um lado para o outro para não perder nada daquilo que deixava de ser aquilo pra ser nada, que deixava de ser nada pra ser exatamente aquilo e nada de novo.
Eu gritava, tentava avisar às pessoas, fazê-las ver, mas não podia... Elas não ouviam, elas falavam e falavam coisas cheias de sentido só para quem? Mas compartilhavam ou fingiam que compartilhavam como se o que dissessem interessasse aos outros, como se interessasse a si mesmos.
E eu achava graça e ria. Achava triste e chorava, achava triste e ria, achava graça e chorava.

terça-feira, maio 12, 2009

Desamar

(hum
péssimo.
te perdôo.
te amo incondicionalmente. aconteceu de te amar.
e agora?
nunca ouvi falar em desamar alguém)

Um cara parou meu tio no sinal
apontou um revolver pra dentro do carro
meu tio abriu a porta com força e desarmou o cara
isso é desarmar

minha tia falou pro meu tio que ia embora
ia com o outro pra outro lugar
ela desarmou meu tio, mas meu tio não desamou minha tia
é que desamar não é só questão de tirar erre, sabe, não é

segunda-feira, maio 04, 2009

Seria o fim da festa Junina?

Mas é que eu sou covarde
Mas é que eu sou bocuda
Mas é que eu erro sempre
Mas é que eu moro longe
Mas é que não tenho tempo
Mas é que não tenho grana
Mas é que me falta gana
Mas é que me falta tu
E se tu me faltas eu sigo assim
A me desculpar com chulices
A me condenar por bestices
A acreditar em tolices
A cometer idiotices
Se tu não gostas mais de mim

sexta-feira, maio 01, 2009

Azeda demais para filme americano

É quando eu chego tarde, virada

O sol já querendo vir

Arrastada, esfumaçada


Que eu queria estar num sucesso americano

Pra entrar em casa e ter um bulldog me esperando

Deitar na cama de sapato e tudo embaixo das cobertas


Então levantar descabeladamente linda tropeçando nos meus Gucci

Deixar a água transbordar num banho quente de espumas

E ir a pé pro trabalho porque NY é perfeita no outono

terça-feira, abril 28, 2009

Beijo

Faltou um beijo

Isso não pode faltar

Há quem diga nos olhos “me beija”

E lance um beijo no ar


Despeço-me de longe

E não que me faltem beijos para dar

Só prefiro não dizer a esmo

Se beijo foi feito pra beijar


Se cruzamos um com outro

Por acaso ou por encontro

E daí se cruza nosso olhar


Se quisermos um ao outro

Por acaso ou por engano

Ah, daí vale beijar




**


De repente levanta

Pega o casaco, a bolsa

Acerta a conta, adianta

E me diz que vai ligar


Frases assim ouço tantas

Que dessa vez acredito

Então foi me secando a garganta

Meus olhos dizendo “não vá”


Já do lado de fora, safado

Lança-me o tal beijo pro ar

Que me chega feito gesto obsceno


Grito pra dentro, abafado

Beijo foi feito pra beijar

E me despeço com um aceno.


do dia 27.04.09

segunda-feira, abril 27, 2009

Intimidade

Para mim, é muito natural que o gerar encontre origem na trepada.
Não há "mais perto" de alguém que se possa estar, do que dentro dele.
De modo que na trepada e na gestação se dá o encontro mais íntimo entre Seres Humanos.

Com a sutil diferença de que numa situação você tem de estar dentro pra crescer e na outra, tem que crescer pra estar dentro.

Ah, também nunca soube de uma trepada que tenha durado 9 meses.

Pra ver no que vai dar

Quero mais do que me dá inverno na barriga

Curtir ser inconstante, ir mais distante

Só pra ver no que vai dar.

Contar com o acaso pra não me sentir sozinha

Traçar nenhuma meta, fugir da reta

Só pra ver no que vai dar

Posso muito mais de tudo essa noite

Tocar mais fundo, olhar mais dentro

Epifania

Quero muito mais do mundo o tempo todo

E celebrar a madrugada virar dia