Mexo

Mexo
:::em tudo (foto: Rafael Bertelli)

segunda-feira, março 07, 2011

Pra não perder o costume


Foi engraçado porque ela começou a se jogar pra cima de mim. Atriz. Não acontecia há muito tempo comigo. Fiquei nervoso, tentado, ridículo, sei lá. Engraçado.
Eu percebi a tensão de cara. Ela procurando os meus olhos a qualquer custo.
Me passa o cardápio por favor? A mão estendida na minha direção, os olhos enxergando o outro lado da minha cabeça. Desviei o olhar do dela, foquei "Caldo de mocotó", Pera, ainda to escolhendo. Ela continuava a olhar nos meus olhos, meu nariz sobre o cardápio sobre a mesa, mas o olhar dela, eu sentia, penetrava aquele espaço e vinha confrontar o meu, paralisando minha leitura, porque se mudasse de linha, se espalhasse o foco, podia ser que me pegasse, podia ser que eu olhasse também pra ela de novo, e a gente sabia que não ia prestar. Eu vou de caldo de mocotó. Toma. Virei-me precipitado para o balcão, Amigo! Mais uma cerveja. E quando voltei decidido a confrontá-la, a resistir, alívio breve, seus olhos miravam o copo a minha frente, ainda metade cheio de cerveja. Contemplada com minha confusão, deitou e rolou seus olhos nos meus. A cerveja vai esquentar, Roberto. Você gosta de cerveja quente? Sarcástica ainda. Venceu. Não, eu não gosto de cerveja quente. E também não gosto de caldo de mocotó.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Conto de real tristeza

Eu peguei na mãozinha dele e disse:
- Vem. Você vem comigo. Quer vir?
Ele respondeu:
- Quero.
Levei ele pra casa, enchi a banheira bem quente cheia de espuma e falei que ele não precisava ter pressa, que podia brincar à vontade, que qualquer coisa chamasse, que eu estaria na cozinha.
Lá, tudo começou a me confundir. Achei melhor perguntar:
- Você tomou café da manhã?
- Café, não. Comi biscoito só.
Biscoito.
- Depois do banho, você vai querer almoçar ou ver um pouco de TV?
A demora da resposta me cortou o peito em sete.
- Ver TV.
- ok.
Voltei pra cozinha e segundos depois, ele estava na porta, me olhando, ainda quase todo molhado de pressa e vestindo as velhas roupinhas sujas:
- Posso ver TV agora, tia?
Eu sorri:
- Pera. Antes eu vou te dar um short meu e uma blusa pra você ficar em casa enquanto eu lavo sua roupa, o que acha?
Ele me olhou. Me media.
Eu ri:
- Vai ficar engraçado, mas é só enquanto espera. É que você tá tão lindão e cheiroso que a roupa precisa ficar assim Também, não acha?
- uhum. – respondeu desconfiado.
Fomos juntos no quarto e ele quis vestir minha blusa do Flamengo. Ficou realmente engraçado. A blusa chegava ao joelho dele. O short era um de corrida, da época que eu era menor porque corria.

Sentou na pontinha do sofá, como quem não quer parecer à vontade demais, invasivo.
Quis trazer o almoço pra ele na sala, pra comer diante da TV, porque me arrependera de tê-lo feito decidir entre a comida e à tv, mas daí pensei que era melhor não.
Talvez essa tenha sido a primeira vez que alguém lhe tenha dado a chance de escolher. Não podia estragar tudo.

Depois de algum tempo assistindo desenhos, perguntei:
- Tá com fome agora? Vamos na cozinha almoçar?
Ele estava vidrado na TV:
- Tô com fome agora não.
- A gente pode comer e voltar pra sala. A TV não vai sair correndo.
Ele concordou.

- Mistura pra mim também? – perguntou enquanto eu o servia de carne moída, em cima do purê de batata, como gostava no meu prato.
- Ué, por que não?
- É que em casa, quando tem mistura, é só pros adultos.
Eu perdi a fome. Olhei pro meu prato e o imaginei vazio. Depois, só com arroz, e só com o feijão, e depois só com a batata. E tive nojo da carne moída.
Comi assim mesmo. Comia rápido, querendo que aquilo acabasse logo.
Ele comia devagar, querendo talvez que durasse pra sempre? Esquecera da TV? Essas idéias me furaram o estômago.
Não comeu mais do que estava em seu prato; eu nem coloquei muito. Não repetiu e também não deixou nada.
- Posso pegar um pouco d’água? – ele tava sorrindo. Eu querendo chorar.
- Claro, tem copo ali. – e foi até o filtro. Gostou do botão do filtro.
Encheu o copo de água bem gelada, que doeu no dente:
- Ai, – sorrindo de novo – vou ter que esperar esquentar um pouco. – Estava de repente tímido, como se tivesse feito uma travessura, ou como se tivesse abusado da minha hospitalidade, enchendo o copo com meu raríssimo artigo de luxo: a água gelada pelo filtro com botão e luzinha.
Eu sorri envergonhada. Envergonhada de mim, do meu país, do meu filtro. Ele não percebeu e me perdoou:
- Vamos ver TV, tia? Daqui a pouco tenho que ir embora.

segunda-feira, novembro 22, 2010

à vista

Nunca pensei que fosse santo
Nunca pensei que fosse torto
Nunca pensei que fosse sombra
Nunca pensei que fosse vento
Nunca pensei que fosse tanto

Sempre soube ser o que se via.

quarta-feira, novembro 03, 2010

Curitiba Minha

Ai que vontade louca de ficar
Assumir raízes
Deixar crescer também pra baixo
Não ir por aí como fui nascido

Ai que vontade louca de ficar
De me aprofundar em Curitiba
Pertencer às suas letras
Declamar o amor que faz comigo

Como não sentir saudades desde já
Cidade minha que escolhi
Se a vida que me acolhe simplesmente
Não há melhor senão aqui

Ai que vontade louca de ficar
Assumir raízes
Pois você Curitiba minha
É em mim dez mil países.

segunda-feira, novembro 01, 2010

Poemas Breves - Foco

Vá longe o que não alcanço!
O que há em minhas mãos me chega.

sábado, outubro 23, 2010

Acabado

Bom é começar a escrever um texto de amor e apagar tudo só por ter lembrado que não foi amor coisa nenhuma. Capricho é traidor do genuíno. E não me falta nada.

terça-feira, outubro 12, 2010

Monsters

I'm not afraid of anything
But those monsters outside
the fuckers want me as a thrall

They have pliers instead of fingers
They want to read my ears
I don't like them at all

I'm not afraid of anything
But those monsters outside
the fuckers drive me insane

I just wish they had no legs
They are coming to get me
I can hear them whispering my name

Monsters say
Defy me
Fuckers!
Insane defines me

terça-feira, agosto 17, 2010

glasses


Have you got eyes
Behind your glasses?

I can’t find eyes
Behind the lenses.

I’m looking for your eyes
Behind the glasses.

Where do your tears come from?

From dark dark memories?
From deep deep holes?
From dark deep holes behind your eyes?

sexta-feira, julho 02, 2010

mulher natural



"eu sou uma pessoa de sessenta quilos naturais
eu uso de remédios para inibir meu apetite
eu me sinto um pouco fracassada mas
cada vez que me vejo no espelho
esqueço disso um pouco mais"

quinta-feira, junho 24, 2010

moon


From the window in my room
I can see the moon

Too simple to be mine
Although I could bet

It is impossible a rhyme
To be more beautiful than that.

terça-feira, junho 15, 2010

Mulherzice Crônica

Eu vou escrever umas linhas de amor, deixar vazar essa vontade de "Querido Diário", porque mais que isso não é, vício de mulherzinha, humanota que vive falando de amor. Talvez seja falta de cultura. Mas quero acreditar que seja só falta de amor mesmo.
Não tenho. Tenho? Amo? Que é isso, essa vontade de dizer "Te amo", mas sendo só vontade, só meio que pra se sentir vivo, sabe?
Como se eu, mulherzinha sem cultura, fosse capaz de compreender o sentido da vida, o desvendar... o amor. Logo eu, que quero estar viva nem sei porquê; que o não saber me faz querer, talvez... mas o amor... amar... Daí eu penso em todos eles. Nos homens, na mulher - uma só - que amei. E vejo seus rostos e me emociono com as coisas que seus olhos me disseram... e não há último ou primeiro. Não ter nenhum deles, exclui qualquer necessidade de classificação. Os amo a todos ainda e sempre, os que realmente amei.
O Último, e esse posso dizer que foi o último. O Último foi uma invenção, uma questão de vida ou tédio. E foi bonito também, quase real, mas quase. Quase porque eu prefiro acreditar que sou muito criativa e não que estraguei tudo. Não! Olha eu de novo. Eu sou criativa. Eu invento paixões e romances com a facilidade de uma pessoa... carente.
Talvez eu estivesse certa sobre o sentido da vida. Talvez seja mesmo o amor, amar. E quem sabe inventar não seja tão mal assim; quem sabe se criando, o quase um dia se torne uma boa surpresa romântica, como se a figura de um daqueles livros finalmente pulasse do papel pra brincar no meu mundo...

segunda-feira, junho 07, 2010

desconfiado descostumo desconexo

Ele fechou os olhos
ela nem respirou e beijou ele.
Eu sabia! Eu sabia que ela ia fazer isso.
Não tinha certeza de quando ela tinha se tornado assim tão previsível.
Será que foi com o tempo?
Ou com a distância?
Será que sempre foi assim e eu que me desacostumei?
Desde quando mergulha assim nos lábios de alguém que só fez fechar os olhos?
Quem é ele? amor novo?
Desde quando ama?
Me desacostumei, será?

Impulsos fervidos de beijos que não reconheço.
De longe, parece filme, é quase inspirador.
De perto, é infantil, desesperado, me dá certo embaraço.
Não tenho certeza de quando comecei a me sentir constrangido pelos outros.
Eu, que antes ria, agora rio amarelo, cubro o rosto, mudo de canal.
Gestos atabalhoados respingam em mim e me incomodam como andar de bicicleta sem paralamas, numa cidade grande, em dia de chuva - leptospirose certa.

quarta-feira, maio 05, 2010

Conexao-Verbindung

Nao, nao era alguem do alem. tampouco fbi, cia, nao.
Era eu tentando algum contato, tocar sua voz com meus ouvidos.
Sem medo ou maiores especulacoes.
A saudade nao é uma grande coisa pra quem nao se lembra.
E se nao me pôde ouvir, nao invente coisas que atrapalhem ainda mais nossa conexao, desviando a energia que vibro pra ti como quem a tira com a mao do seu curso natural que é daqui praí; como quem a empurra da ponte fazendo-a voar pra baixo e se espatifar no fim do penhasco sem deixar sobrar nada inteiro, exatamente como se faz com coracoes.
Nao invente, nao atrapalhe, nao a deixe despencar e principalmente, nao se atire com ela.

quarta-feira, abril 21, 2010

The best


When we are alone at home and we have nothing better to do,
 My pride and I lie to myself.

Just like you and your need, when You have nothing better to do,
You go around winning some hearts.

One day, my pride and I, we had nothing better to do,
We decided that you would not win mine.

But when you had nothing better to do,
You and your need opened your door to me.

I came in and said “hi”,
My pride and I looked at each other and said “bye”.

Just because we knew, that was the best thing we could do.

domingo, março 21, 2010

Azulão


Eu falava das coisinhas da minha vida, encenava momentos que vinham e falava, me repetia, eu falava coisinhas da minha vida.
Ele também falava às vezes.
O que dizia mesmo?
Me perdera no azulão dos seus olhos.
Por isso talvez eu não calasse...

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Bicho


e que que se faz com esse bicho que rói aqui dentro soda cáustica veia por veia espaguete bolonhesa, puta que me pariu e por dentro do meu umbigo o estrago que faz e na garganta quando sopra quente, que que se faz? agarro toda minha pele, aperto, contraio abdômen, quero sufocar o bicho, ele ganha espaço, sarcástico, bicho cresce no aperto. quase pego ele na minha cintura, pego no pé dele, toco. ele morde e dói de novo. mora aqui essa peste, o bicho que rói aqui dentro, filho de uma puta, quer um nome. é que tudo o que a gente tem dentro parece que deve ao mundo resposta em palavra. tudo pra fora, como se soltar voz no vento libertasse o bicho. falsa sensação que às vezes funciona. então se diz que é amor. que é ansiedade. depressão. essas coisas que não se remedeiam com homeopatia ou cocaína ou porre de tequila pq de tudo se tem ressaca se é tudo sempre questão de acordar e disso eu não abro mão, bicho fodido. bicho fazendo freje, fazendo a louca, me estrangulando mas eu não vou dizer nada. não vou soltar uma palavra, ninguém engana o bicho, sacana.

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Peter Pan


Eu e meu amigo Peter Pan, nós gostamos de cantar para as estrelas.
E quando está nublado, cantamos um pro outro.
Às vezes nos permitimos, mudos, ao aconchego do ombro um do outro e bocejos e cochilos até. E quem dá o ombro, geralmente fica responsável por fazer cafunés com a ponta do nariz naquele que descansa.
Ele sabe que eu tenho medo de altura, então voa baixo comigo em suas costas, espiando pelos vidros dos trens, dos carros nas estradas, acompanhando o galope dos animais selvagens: Búfalos, cavalos, elefantes.
Fazemos verão com as andorinhas e voltamos pra casa, pra minha janela, porque em noite de verão, tem estrela no céu e daí dá pra cantar pra elas.
E quando canso, ele continua sozinho.
Meu amigo Peter Pan que não tem medo de nada... Canta pra mim, apoiada em seu ombro, abraçada aos meus joelhos.
E quando é hora de ir, simplesmente me beija e vai. Me beija nos lábios e vai. Não me leva pra sua Terra do Nunca. Me deixa sempre uma esperança.
Ai Peter Pan, Peter Pan, meu amigo malvado! Que será de mim no dia em que não voltar mais pra me levar em suas costas? Que sentido terão as estrelas, afinal, quando não mais cantarmos juntos pra elas? Que sentido terá o verão?
Eu cresço, Peter Pan, eu cresço...

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Berdeline

I see a thousand flowers on my way to you
I pass by shadows of walls and trees
I have no shoes on

The silent streets to you are heaven
I sing to the birds, they are flying around my ears
I can hear your voice saying “hi”

Those miles I left behind two years ago…
I’ve been following stars and clouds
They are my road to you, Berdeline

I have nothing else
But lots of kissing, cooking, dancing
And making-love-to-you dreams.


A little butterfly takes me on its shoulder
I’m flying to you on the back of joy!
Open the gate to your garden

Sweet Berdeline!
I have a gift for you
I’ll give you this butterfly.

Put some warm water in a pot
Add some salt and herbs to it
I’ll repose my feet in this water

‘Cause I’m coming and I have no shoes on

I only have lots of kissing, cooking, dancing
And making-love-to-you dreams.
But that’s all. That’s all I have.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Alguém que me entregue o céu e me faça querer


Com três céus nas mãos, ela bateu na minha porta. Eu abri e ela me estendeu os braços, abriu as mãos e numa delas, na direita, acho, tinha um e na outra, dois céus. Eram azuis e ensolarados, mas não faziam calor. No entanto, eu suava. Ao mesmo tempo, aquele maldito inverno na barriga.
Não pequei nenhum deles. Fechei a porta abruptamente. Virei as costas e voltei pro meu apartamento. minha solidão. meu inferno.

(foto: Arek Głębocki)

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Seguir só

E quem quiser me acreditar
Que me siga!
Nas minhas mentiras curativas
Que me siga!
Naquilo que inventei para mim mesmo
Que me siga!

Me sigam aqueles que têm medo
De perder o que lhes é querido
E por isso, só por isso
Mentem.
Aqueles que guardam pra si o que é de risco
Que me sigam!

Porque escolhi o meu caminho num cesto onde deitavam mais dois ou três e nenhum deles, nem mesmo o que tirei, nenhum era certo, todos sinuosos. Então peguei o mais estreito, estreitíssimo caminho sinuoso.
Pra sentir como é caminhar sem ter alguém do lado. Sem a responsabilidade de carregar pela mão. Não, não me peça. Porque se sigo só, é pra não te abandonar algum dia, é pra tu não me abandonares. Somente se isso for o inevitável, que disso não há cesto onde se possa escolher...